Natal - Missa de Gallo - 1997



Os italianos têm um dito: "Tradutore, traditore". Aquele que tenta traduzir um texto de uma lingua para outra acaba traindo-o, falsificando-o. Não é possível levar para o inglês, por exemplo, uma poesia de Castro Alves. A cada passo, a cada estrofe, um pouco da beleza, do significado, cai do cálice do poema, e quando a gente chega ao fim - a tradução realizada - o copo está vazio, o único sabor é o do metal.



Deus, que gosta de desafios (quanto mais difícil, mais gostoso), tomou a decisão - faz 1997 anos, esta noite - de traduzir o Verbo para a carne - isto é, de traduzir "Deus" para uma vida humana. Imaginem: Tomar a realidade infinita e inexprimível de Deus, o poder, a glória, a sabedoria, o amor, a luz, que vão além de...além de tudo - tomar esta realidade que totalmente excede e faz cambalear toda inteligência - e traduzí-la, reproduzí-la, sem a mínima infidelidade, sem a mínima traição, num homem. Colocar e fazer visível, compreensível, toda a extensão e profundidade de Deus em um corpo, alma e espírito de um pequeno ente, uma pessoa. Comunicar a plenitude de seu ser e seu coração tão perfeitamente nesta pessoa que vê-lo vai ser igual ver ao próprio Deus-Pai. "Impossível," apostam os estudiosos. "Vamos ver," responde Deus.



O título da tradução já sabemos: Jesus. A tradução começa de modo muito simples e meio desajeitado: uma jovem grávida, sem marido; depois, uma rápida mudança da cena de Nazaré para Belém (culpa dos Romanos e do recenseamento), mais uma mudança de uma hospedaria para um estábulo(culpa da muita gente que chegou mais cedo para registrar-se), ainda mais uma mudança de Belém para Egito(culpa do rei Herodes e seus ciúmes), e finalmente o regresso para Nazaré. "Já complicado demais", comentam entre si os críticos literários. "Não vai dar. Teria sido melhor não ter começado." E esta impressão de falta de controle da parte do tradutor torna-se se ainda mais forte depois do tempo da infância de Jesus, quando, por um prazo de dezoito anos- de doze até trinta - a página da tradução simplesmente fica em branco. Nenhuma notícia sobre Jesus. Sumiu. Onde está ele ? Será que a poesia já acabou? Deus perdeu a coragem?



Inesperadamente, porém, à beira do rio Jordão, entramos de novo em contato com a divina tentativa de tornar o Verbo carne, ou seja, homem. E desta vez parece que o Grande Tradutor está realmente inspirado. Porque agora vemos e ouvimos coisas que nunca tínhamos visto ou ouvido antes, coisas que fazem com que os nossos corações ardam de desejo e esperança: A visão da existência apresentada nas Bem-Aventuranças e na pregação de pureza, não-violência, perdão. A vitória sobre doença, demônios e morte manifestada nos milagres. A possibiladade duma convivência verdadeiramente fraterna oferecida no pequeno grupo de discípulos. As parábolas que convidam - tão fortemente - a sair dos hábitos de concorrência, inveja, ódio e avareza, e passar para um reino de amor e justiça. A maneira deste Jesus de estar com os pobres, os fracos, os estrangeiros, os pecadores. A ausência absoluta de medo da parte dele enquanto enfrenta adversários poderosos. "Ó Tradutor," dizemos, "continua, não para. Esta poesia, esta tentativa de falar Deus no homem..." Mas será que ele vai poder levá-la com êxito até o fim?



Realmente, o Tradutor divino está suando: Como irá ele manifestar numa vida humana o amor infinitamente terno, profundo, generoso, sacrifical que Deus tem para com as suas criaturas, e que é a própria essência dele? E como combinar este amor sacrifical com a alegria eterna, inabalável, exultante que igualmente constitui o coração - o núcleo - do mistério de Deus? Como colocar tudo isto numa vida humana - a mais preciosa vida que para Deus já existiu? "Esta infinidade de amor e de alegria," pensa Deus. "Só eu a posso conter. Ninguém mais. São tamanhos este amor e alegria que vão esmagá-lo. Sim...mas depois resucitá-lo."



Sabemos como Deus concluiu sua tradução de si-mesmo, como terminou a obra que tinha começado tantos anos antes. Como escreveu nos últimos dias de Jesus os mais gloriosos e lindos versículos de toda a literatura de realidade: A última ceia: "Tomai todos, e comei"; Getsêmani: "Não fostes capazes de vigiar uma hora comigo?"; o tribunal: "Para isto é que vim ao mundo: para dar testemunho da verdade"; toda a série das palavras na cruz: "Meu Deus, por que me abandonaste?", "Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem", "Tenho sede", "Mulher, eis o teu filho", "Tudo está consumado", "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito." Como Deus reproduziu seu divino silêncio e sofrimento através do Sábado Santo, quando Jesus jazia no sepulcro. E finalmente, como fez brilhar em Jesus - Jesus resuscitado -todo o esplendor, magnificência, triunfo, benevolência e tudo o que é bom na sua vida imortal.



"Consegui!", grita o Tradutor, jogando tinta, papeís e livros à direita e à esquerda. "Terminei o trabalho!", e com entusiasmo dá um pulo da cadeira. "Consegui, consegui, consegui!" Vejam como ele rodopeia, dançando com a sua tradução, a sua poesia, o seu filho - e esta dança chama-se o Espírito Santo.



O que a gente faz quando conseguiu realizar o impossível? Se você é o tipo de pessoa que gosta dum desafio, como Deus gosta, você tentará fazê-lo de novo. É por isso que estamos aqui nesta santíssima noite. Deus quer traduzir seu Verbo para carne mais uma vez: para a nossa carne. Quer reproduzir a plenitude de sua realidade em nossas humildes vidas . "Impossível!", dizem os estudiosos. Mas já os ouvimos há pouco, e agora sabemos que não têm razão. Aliás, o anjo propondo a Maria a primeira tradução, sentenciou :"A Deus nada é impossível." O Natal que Deus quer vai realmente começar quando lhe abrirmos as tábuas de nossos corações e sussararmos, "Escreve!"