Profissão de um Irmão



"Apresentando-se algúem para a vida monástica, não se lhe conceda fácil ingresso, mas, como diz o Apostolo, 'Provai os espíritos, se são de Deus.' Portanto, se aquele que vem, perseverar batendo à porta, e se depois de quatro ou cinco dias, sendo-lhe feitas injúrias e dificuldade para entrar, parece suportar pacientemente e persistir no seu pedido, conceda-se-lhe o ingresso."

(Da Regra de São Bento, Capítulo 58, "Da maneira de proceder à recepção dos irmãos")



Uma tradição invariável dentro da tradição monástica cristã é esta prova dos espíritos. Nas gerações mais antigas, os monges, durante um período de dez dias, costumavam jogar lixo para o candidato, chamá-lo de nomes ofensivos e zombar dele. Por que motivo? Para desencorajar o candidato? Não. Para humilhá-lo? Também não. Então porque? Tal processo constituia, muito vivamente, uma interrogação: "Ad quid venisti?"--Para que vieste? E o mau tratamento queria de proposito forçar uma entrada para o coração do candidato, onde a resposta ainda estava escondida e tirá-la para a luz, a fim de que ele mesmo acabasse sabendo qual a razão de sua vocação.



Um jovem precisa entender porque quer ser monge. Não sabendo, nunca possuirá a firmeza de perseverar até o fim. Enganando-se com uma resposta inadequada, vai desperdiçar o mistério da sua chamada.



É verdade que dentro desta resposta há camadas: auténticos niveis que comunicam um ou outro aspecto da vocação monástica. Por exemplo: testemunho. O monge, através da sua vida retirada e ascética manifesta a primazia dos valores evangélicos. Ou intercessão: Por meio da sua fidelidade e oração, o monge pede e obtem o divino auxílio pelo mundo. Ou louvor: O monge proclama, em nome da toda Igreja, os elógios do Senhor. Ou hospitalidade: O monge espera à porta do mosteiro para receber na paz do Cristo os aflitos e abandonados. Ou sabedoria: Nos vastos espaços do deserto, o monge cultiva o entendimento profundo de Deus, do mundo, de si mesmo. Ou ecumenismo: O monge por sua abertura e sensibilidade conserta com os homens das diversas religiões as ligações rompidas. Ou...



Mas, cavemos ainda mais profundamente o terreno. Aqui está o Irmão Bento esperando uma resposta tão perdurável como os anos de sua vida. E se nos retardarmos demais, talvez vá fugir do altar. E quem iria lavar as roupas na próxima segunda-feira?



Porque monge? Para ser conscientemente criatura, para apresentar-se ao Senhor, dizendo: "Eis-me aqui.Eis-me aqui, obra da vossa mão. Então, faça-se em mim segundo a vossa palavra. Vivei a vossa vida na minha vida. Sede vós mesmo, ficai à vontade, no íntimo do meu ser. Eu não tenho nenhuma noção do que isto poderia significar, porque vós sois o mistério infinito. Pois bem. Se vós sois fogo, ardei em mim. Se vós sois agua, correi em mim. Se vós sois terra, sede fecundo em mim. Se vós sois ar, soprai em mim. Tudo o que vós sois, vós que sois acima de tudo, vós que São João da Cruz chama de "Eu não sei o que"--isto sede em mim. E seja eu o caminho pelo qual vos andais, a casa que habitais, o abrigo no qual vós vos escondeis, o pão com o qual vós vos alimentais...porque em vós, Senhor, eu espero."



Acho que Irmão Bento já sabe esta resposta. Porque escolheu para lembrancinha dos seus votos não apenas uma mas três imagens da entrega total: a lâmpada, a cruz, e o homem envolvido na cogula. O óleo da lâmpada entrega-se ao mistério da chama, o Filho na cruz ao mistério do Pai, o homem na cogula ao mistério do... Amor. O monge descobriu o mistério que habita e ultrapassa todas as coisas: o Amor. Só para o Amor pode ser dito absolutamente, sem a mínima reserva: "Faça-se em mim segundo a vossa palavra." Assim pensou e agiu Santa Teresinha que tem inspirando e acompanhado Bento na sua caminhada no noviciado. Assim pensaram, falaram e agiram também os padres cistercienses que ele vai conhecer nestes anos de profissão temporária.



Com esta lembrancinha Bento deu a sua resposta aos monges das gerações antigas que punham à prova a convição do candidato. Eles ficam contentes. E nós? Para nós é uma profunda alegria assistir a estes votos. Mas não apenas assistir. Enquanto Bento mergulha em Deus, cerremos os nosos olhos, e mergulhemos novamente com ele, em Deus todo-poderoso, Deus todo-misericordioso. Amém.