Solenidade da Imaculada Conceição, 1996
Quando eu era criança, tinhamos "descoberto" um paradoxo com o qual a gente gostava de brincar: Poderia Deus criar uma pedra tão pesada que não conseguisse levantá-la? A pergunta concentrava-se no poder, na onipotência, de Deus--Se ele pudesse criar uma pedra assim, ele não seria onipotente, porque lhe escaparia a capacidade de levantá-la. Por outro lado, se ele não pudesse criar uma tal pedra, seria claro que o poder dele estaria limitado. Isto era um quebra-cabeça interessante, mas não importante--não tendo muito a ver com as nossas vidas diárias.
Agora que eu sou adulto, ando ainda interessado pela questão de poder de Deus. Porque descobri uma coisa que, sem sombra de dúvida, Deus não conseque fazer. Deus não pode apagar! Deus não tem borracha! Tudo que acontece em nosso mundo tem que permanecer. Cada evento da história do mundo, do menor até o maior, do nascimento duma borboleta até uma guerra entre tribos africanas, fica inapagável. Todos os acontecimentos perduram, escritos no livro da realidade; e mais ainda produzem numerosos filhos, que se chamam conseqüências.
Este limite do poder divino - o fato que nem Deus mesmo pode apagar os acontecimentos nem impedir as suas conseqüências - isso não é brincadeira das crianças. Porque cada um de nós (e os adultos aqui presentes vão entender) já cometeu, já experimentou coisas que até agora estão machucando a vida da gente, e também a vida de nossas famílias e de nossos amigos. Uma negligência, uma conversa imprudente, uma traição - fatos acontecidos muitos anos atrás - estão ainda envenenando um relacionamento, prejudicando uma comunidade, paralisando uma família. Há algúem aqui esta manhã que não carregue dentro de si mesmo a tristeza duma amizade destruída--porque "Coisas aconteceram" e não dá mais para consertar?
Mas,se Deus não pode cancelar acontecimento algum nem fazer desaparecer da história nenhuma conseqüência de atos anteriores, o que estamos nós fazendo nesta igreja, celebrando neste momento? Pois bem: Estamos celebrando não o apagamento da realidade mas a redenção da realidade, que começa com Maria, com a imaculada conceção da Virgem.
Maria constitui o modo divino de salvar. Maria é a divina novidade, introduzida no mundo velho. Maria é a vida humana tal como Deus a quis inicialmente na criação , mandada a um mundo doente e pervertido, um mundo cheio de acontecimentos irreversíveis e conseqüências deploráveis.
E que conseqüência traz esta novidade a nosso mundo? A presença da Virgem não suprime nem elimina as coisas que a rodeiam, mas esta presença transforma as coisas, abre novas posibilidades para as pessoas, traz uma bondade e uma paz em situaçoes que permitem também a gente agir de um modo novo, de um modo mais amplo, no meio dos velhos acontecimentos e suas conseqüências. No dia de Natal veremos como a presença de Maria no meio do exílio, da pobreza e da sujeira dum estábulo emite uma luz, que ia crescendo hora após hora, dia após dia, até que atraiu a si mesma anjos, pastores e reis. O estábulo continuou estábulo; o burro, burro; no entanto, a presença de Maria comunicou a todas estas coisas uma glória, a divina glória, que nunca mais se afastaria delas.
Nós temos que imitar este modo de presença da Virgem Imaculada. Ajudados pela graça de Deus, pela intercessão de Maria, nós também podemos introduzir um novo poder transformador dentro de nossas vidas , famílias e comunidades. Nós podemos comprometer-nos a tornar-nos, pelo dom de Deus, sua nova criação num mundo quebrado. Talvez, no começo, o trabalho vá andar devagar, quase imperceptível. Não pode ser diferente:o meio-ambiente humano vai precisar dum bom tempo para ser sanado. Vai demorar bastante, até que todos os piores acontecimentos e suas conseqüências em nossas vidas - erros, hostilidades, pecados - fiquem iluminados pela nova luz. No começo os nossos esforços vão parecer tão pequenos e tão fracos como o corpo duma criança--o corpo de Maria no dia da sua conceição. Mas esta luz vai produzir as suas próprias conseqüências, vai crescer, vai absorver e transfigurar as coisas. O resultado será resurreição. Isto é a nossa fé.