Em busca de uma luz, I
(16 de julho de 2005)
1. Estamos em busca de uma luz - forte, forte, constante,
única- capaz de orientar-nos, em nosso pensamento, nosso comportamento e nosso
afeto. Estamos em busca de uma estrela de Belém, uma referência, que fica no
centro de nossas vidas, e de lá se irradia, iluminando tudo, até as fronteiras
de nossa existência. Precisamos de uma intuição -e convicção- central, que
serve como base e orientação em todas as nossas atividades e sofrimentos.
2. Sabemos que, na tradição beneditina, esta luz tem algo
a ver com humildade. Mas na verdade, humildade não é a luz que irradia a nossa
existência- é o reflexo desta luz, é a conseqüência, a transformação realizada
em nós por meio do encontro com esta luz. Não é realmente o nosso dever
principal, mesmo como monges, de tornar-nos humildes, nem de esforçar-nos
para tornar-nos humildes, e sim, de
descobrir esta luz, de manter-nos dentro dela, e deixá-la iluminar-nos. A
humildade será um efeito colateral, um sinal ( mais para os demais do que para
a gente) que a luz está surtindo efeito.
3. Mesmo assim, acho que podemos tomar o capítulo sete da
Regra como instrumento de trabalho, como contexto para nossa reflexão sobre
aquela luz que buscamos, que ilumina todo homem. Quando eu era noviço, o
capítulo foi interpretado em termos dos capítulos anteriores: Os primeiros
quatro graus tratavam da humildade de obediência (cap. 5), os últimos quatro da
humildade do silêncio (cap. 6) e os quatro do meio, da humildade da humildade
(cap. 7), por assim dizer. Hoje em dia acho mais profundo, e pelo menos mais
relevante a este projeto que estou apresentando, manter esta divisão de três partes
, mas tomando uma outra ótica: Os primeiros quatro graus ressaltam de nosso
encontro/nossa relação com Deus, os próximos de nosso encontro com nós mesmos,
e os últimos de nosso encontro com a comunidade, com o próximo. Não há dúvida
que esta é uma interpretação cisterciense do capítulo- para os nossos padres, a
nossa existência é sempre e acima de tudo, pessoal, isto é, centrada em pessoas
. Nisto eles estão em continuidade com toda a tradição bíblica e patrística da
Igreja.
4. São Bento nos aconselha: “Quando encetares algo de bom,
pede a Deus com oração muito insistente que seja por Ele plenamente realizado”
(Pról.4). Vamos pedir que esta consideração que vai durar alguns meses nos
aproxime um pouco mais desta luz, que é de todas as coisas a mais necessária-
uma luz que ilumina e alegra toda a nossa existência.
5. Esta luz, numa primeira compreensão, já nos é dada no
primeiro grau da humildade. Qual é esta luz? Deus é. Esta é a verdade mais alta
da existência: Deus existe. O cosmos, a evolução, a história da civilização, as
produções da ciência e da arte, a subida e queda de impérios, o crescimento e
interação de culturas, as descobertas macro e microscópicos - toda esta
grandiosidade que tanto nos impressiona decorre e está infinitamente aquém de uma única eterna realidade: Deus- Aquele que é, que era e que
há de ser. Igualmente, todas as coisas da gente- os nossos planos, os nossos
anseios, a nossa história familiar e pessoal, os nossos interesses, as nossas
realizações e derrotas- todas estas coisas que tanto nos preocupam e tendem a
nos absorver por completo- toda esta
esfera pessoal minha, sua, procede desta única realidade, assim como nosso
corpo, nossa alma, nossa ser. O universo nos parece infinito e a nossa vida
individual parece de importância infinita, mas na verdade, a importância que o
universo tem, que a minha vida tem, é totalmente dependente deste Mistério que
é Deus, e em comparação com quem (assim diz o profeta Isaías) o universo todo
não passa de uma poeira no balanço. Este sumo Mistério é tranqüilo, é
invisível, é espiritual, e portanto batemos nele o tempo todo sem darmos conta
dele. Mas Ele é o centro criativo de
tudo, a razão de ser de tudo, e o destino de tudo.
6. Ele é aquela luz que buscamos, mas dizer isto não põe
fim à nossa busca. Luz é para ser vista, e afirmar (conjecturar) que há um Deus
é tremendamente distante do que vê-lo. Este capítulo sete pretende ajudar-nos a
vê-lo, a vê-lo tão claramente que nós nos tornemos luz- luz da luz, como diz o
símbolo.
7. O primeiro grau da humildade propõe alguns exercícios
iniciais para aumentar o grau de nossa visão. São iniciais, mas também são
fundamentais, e também não são terminais. Representam primeiros passos
permanentes. O primeiro exercício é um exercício de memória, é uma repetitio: Deus é Mais do que qualquer outra coisa, temos que fugir o
esquecimento daquilo que sabemos : Deus é. “O monge evite absolutamente
qualquer esquecimento.” Temos uma parcela pequena desta luz que buscamos, temos
a mera afirmação da existência desta suma realidade: Deus é. Mas daquilo que
temos não podemos abrir mão. Ao contrário, a nossa tarefa é de cultivar e
fortalecer esta memória, Deus é. Sabemos de nossas constituições quão
importante é a noção de memoria Dei,
e sabemos que todas as dimensões de interioridade de nossa vida- leitura,
oração, silêncio, solidão, separação do mundo- visam a conservação e
intensificação desta consciência: Deus é. O primeiro exercício, então, é de
gravar este fato nas tábuas de nosso intelecto- Deus é- e de muitas e muitas
vezes por dia, recorrer a esta inscrição. Quem Ele é, como Ele é, não podemos
saber por enquanto. Então, paciência. Que Ele é, isto nós sabemos, e a
gente trabalha com as ferramentas que a gente tem. Além disso, devemos buscar
confirmação desta parcela da verdade na esfera da natureza e do cotidiano.
Segundo Santo Agostinho, os pássaros, plantas, flores, planetas dizem para nós
o que nós dizemos para nós mesmos: Deus é. Igualmente, os acontecimentos de
nossa vida afirmam do seu jeito a mesma coisa. A doutrina de providência é simplesmente a afirmação que Deus é lida
no background de nosso dia a dia.
8. Há um segundo exercício neste primeiro grau , um pouco
mais complexo: Deus é, e portanto nós
temos que estar em sintonia com Ele. O ser dele não está sem relação com nosso ser, o ser nosso não
cessa de estar em relação com o ser dele após a nossa criação. A criatividade
dele e a nossa relação com Ele continuam depois de sermos chamados para a
existência: continuam como uma orientação para o bem, como um impulso para
configuração com Ele. A nossa relação com Ele continua depois do nascimento em
tornar-nos o reflexo dele na terra. “Eu disse: Vós sois deuses.”
9. Eu disse “uma orientação para o bem”, e esta é uma
percepção dada juntamente com a intuição que Ele é, que Ele é bom. De onde
pegamos esta convicção, que Deus não é poder neutro, e ainda menos malévolo, mas totalmente bondoso? Há
muitas respostas certas, mas a mais importante delas é o testemunho de nossa
própria consciência. Possuímos “uma lei em nossa mente”, um estímulo constante
para amar e realizar o bem, um impulso inapagável a viver justa e retamente.
Esta orientação se faz sentir simultaneamente como coisa
nossa e coisa alheia, como algo que nós mesmos queremos e algo que um Outro
quer de nós. Provavelmente para nós seres humanos, o encontro mais constante
com “Deus que é” se realiza na escuta perpétua da voz de nossa consciência.
10. Com isto chegamos ao último aspecto desta primeira
experiência de Deus. Tão inseparavelmente ligados somos a Ele que o nosso
destino eterno será definido pela relação que temos com Ele. Mais
particularmente, o nosso destino eterno será marcado pela sintonia ou
dissonância que se formou entre a sua criatividade em nós para o bem (a graça)
e a nossa livre acolhida desta criatividade. Como se lê numa das cartas ao
Timóteo, “Ele não pode negar-se a si mesmo”. O seu ser, o seu poder, a sua
bondade permanecerão para sempre, e quem seremos, ou como seremos, dependerá
completamente da nossa configuração a esta realidade.
11. Finalmente, a nossa correspondência ou falta de
correspondência à esta “conformação” é o significado fundamental de toda a
nossa atividade humana. Seja atos, palavras, pensamentos, desejos - tudo o que
realizamos é realizado na presença de Deus e constitui uma resposta parcial mas
cumulativa à ação criativa de Deus em nós. Nunca agimos fora desta presença ou
desconectados desta presença. Nunca fazemos uma coisa “só para a gente”. Assim
como Jesus diz, “O que fez a um destes péquininos, foi a mim que fez”, Deus diz
simpliciter, “O que fez, fez a
mim.” E porque direcionamos absolutamente tudo para Deus, Ele recebe e
anota tudo. Segundo São Bento, Ele ainda não publica sua avaliação veraz
daquilo que fizemos a Ele (quer dizer, a nossa vida), mas não porque não está
prestando atenção. Por enquanto, seu silêncio é sua paciência- é uma abertura
contínua para ver-nos pensar melhor, e tornar-nos melhores- mas seu silêncio
não é negligência. É a preparação para uma palavra definitiva sobre nós. Nosso
futuro eterno é esta palavra+