Em busca de uma luz II
(23 de julho de 2005)
1. Esta luz que manifesta que Deus é e que a sua bondade
e justiça agem para alinhar a nossa vida à sua pouco a pouco
realiza em nós, segundo a Regra, uma mudança no que diz respeito de nossa vontade. Antes, vivíamos tão próximos
à nossa vontade própria que simplesmente cumpríamos tudo aquilo que ela
sugerisse, sem dar-nos conta que a nossa vontade teria possibilidade/capacidade
de dedicar-se a um projeto maior do que a satisfação de seus impulsos,
ou que existia um outro projeto - um “projeto” que goza de
direitos sobre nós.
2. A descoberta que Deus é, que Ele é santo e central,
decisivo não apenas em sua própria vida mas em toda vida, nos faz
repensar a relação entre nós e a nossa vontade. Pela primeira vez, percebemos
uma distinção. Torna-se claro que podemos existir e permanecer sendo nós
mesmos sem simplesmente e sempre seguir
os ditames de nossa vontade pessoal. Pelo contrário, se o nosso ser e seu destino
último são tão intimamente ligados a Deus, parece que atingiríamos a nossa
identidade muito mais em abrir-nos à vontade Dele, em dar livre curso àquela
criatividade divina que nos habita e
nos modela. Em vez de deixar esta criatividade ficar no nível do inevitável
(“Deus vai fazer mesmo aquilo que Ele quer”), seria possível voluntariamente
criar espaço/ oportunidade para esta
ação (São Bernardo: Graça e Livre-Arbítrio).
3. Ao mesmo tempo, sentimos a necessidade de uma escolha.
Sem em nada diminuir o nosso afeto para com nós mesmos, vemos que não podemos
simultaneamente abrir-nos a esta outra Vontade, e continuar paparicando a nossa
vontade própria. Se experimentamos bem o impulso inicial desta luz no primeiro
grau, viemos a acreditar que seremos mais nós mesmos enquanto em harmonia com
Deus do que quando nós nos afastamos dele por correr constantemente atrás do objeto momentâneo de nosso desejo atual
(que está sempre mudando, como sabemos). Dizer isto é dizer que conseguimos
intuir a distância entre concupiscência e vontade profunda, e
que, por mais que a concupiscência seja
excitante como experiência, o caminho para a nossa verdadeira humanidade
não passa por lá.
4. Abre-se, então uma fresta. Conforme São Bento diz neste
segundo grau, não amamos mais a nossa vontade própria. Em outras palavras, não
a veneramos mais simplesmente porque ela surge de nós e nos estimula para ir
atrás de alguma satisfação. Não adoramos mais a nossa energia vital,
simplesmente porque é nossa e sentimos a sua pulsação dentro de nós.
Valorizamos a nossa vontade precisamente por ser capaz de ser encaixada dentro
de uma vontade maior, por ser o lugar principal de nossa sintonia
com Deus. O deixar aberto das fronteiras de nossa vontade à vontade divina é o
ato principal e contínuo de adoração humana. Mas não só deixar aberto- acolher
e compreender e praticar. É exatamente nesta altura que São Bento introduz o
Cristo pela primeira vez neste tratado, Cristo como o homem por excelência que
faz a sua vontade humana perpetuamente acessível e disponível ao movimento da
vontade divina. Cristo aqui se define especificamente em termos de sua escolha
relativa ao emprego de sua vontade: “Eu não vim fazer a minha vontade, mas a
daquele que me enviou.”
5. Houve uma mudança surpreendente, surpreendente
justamente para aquele que passa por ela: Não é mais apetecível, não interessa
mais, fazer de nossa vida um ciclo interminável de desejo- esforço para
alcançar o objeto desejado- satisfação- posse-novo desejo. São Bento diz, não
como exortação mas simples fato, o sujeito
não encontra mais graça nesta busca perpétua da satisfação para os nossos
desejos. Em algum momento tornou-se insosso: “Não amando mais a sua própria
vontade, não se deleita mais em realizar os seus desejos.” (É interessante que
a tradução portuguesa de Juiz de Fora coloca como exortação : Não se deleite.
Mas não é assim que se lê o texto latim, mas : Não se deleita. Mero fato).
Desde agora, de fato, o desafio vai ser, como abrir cada um de nossos desejos,
enquanto se manifestam, à única vontade salvífica de Deus.
6. Sem Deus, a perda de interesse em ir atrás os nossos
desejos seria trágica, seria auto-destrutiva. O homem não vive sem desejos, não
se movimenta sem desejos. Onde nada é desejável, neste mesmo instante paramos.
Mas São Bento não diz que o homem perdeu a força de seu desejo, mas sim, que o
homem encontrou um novo deleite: ativamente e amorosamente colocar a energia de seu desejo à disposição
de alguém que agora ele reconhece como “Aquele que me enviou.” É verdade que o
Pai enviou Jesus ao mundo de uma maneira muito especial. Ao mesmo tempo, é
perfeitamente lícito, e até profundo, chamar-nos os enviados de Deus ao mundo-
todos nós, todo ser humano.
7. Este segundo grau descreve a mudança que a luz de Deus
produz no nível de vontade. No terceiro grau veremos como esta mudança se
traduz em ação, num estilo de vida.
8. Uma última reflexão: No fim deste grau, Bento coloca
uma antítese final: A vontade (própria)
traz consigo a pena e a necessidade gera uma coroa. “Necessidade” hoje
em dia não é uma palavra de associações agradáveis. Nos faz pensar em opressão,
em constrangimento, no sentido forte, em frustração da nossa vontade por um
poder extrínseco. Aqui, porém, não é assim. Em primeiro lugar, é o próprio ser
humano, o próprio sujeito, que por meio de uma decisão livre, opta por não
viver mais por indulgência. Neste sentido é uma expressão de liberdade. Mas importante, acho que para São bento, os
termos soavam diferentes. “Voluntas” tinha a ver com moleza, com falta de
reflexão, com ceder sem resistência à toda onda de impulso corporal ou afetivo.
“Necessitas”, por outro lado, tinha a ver com discernimento- a identificação
daquilo que as circunstancias exigiam-
e com uma corajosa disposição de agir conforme à verdadeira situação,
mesmo quando custe. Os Padres diriam que até este momento tínhamos anima;
no segundo grau começamos a criar ânimo.