Em busca de uma luz , III (6 de agosto de 2005)
1. O primeiro grau da humildade nos apresentou com uma
visão da realidade- que Deus é, e que a sua existência é o fato mais marcante,
sumamente marcante, da nossa. No segundo grau, esta visão transbordou numa nova
vontade, num desejo de abrir a nossa vontade ao fluxo da Vontade Divina, e
fazer de nossa vida interior um constante abraçar-se do beneplacitum divino.
2. No terceiro grau, um dos mais breves textualmente, este
amor pela Vontade Divina que começou a apoderar-se do ser humano, busca sua
expressão apropriada- e a encontra na esfera
de ação. Faz trinta e cinco anos, estou apaixonado por uma frase
lacônica dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio: “ É próprio do amor
manifestar-se mais por obras do que por palavras.” Vejamos como não se trata
aqui do dever mas do desejo: O amor busca uma maneira de
manifestar-se, ou melhor ainda, de encarnar-se. Para nós seres humanos,
o amor se torna real, e satisfaz o coração daquele que ama, quando ele se
“atualiza”.
3. A doutrina de Bento é claríssima acerca deste ponto.
Tudo aquilo que o monge vai fazer neste grau é feito sob a impulsão de amor a
Deus: “O terceiro grau da humildade consiste em que, por amor de Deus...” Por amor de Deus, o quê,
então? Por amor de Deus, o cristão assume uma forma de vida que é
essencialmente o pôr-em-prática constante daquela divina sabedoria à qual ele
se abre no grau interior.
4. Então, o terceiro grau é uma obediência sem reserva à
vontade divina, uma obediência que se vive momento por momento. Nesta altura é
necessário fazer alguns esclarecimentos. Primeiro, devemos levar totalmente a
sério esta afirmação já citada de São Bento de que a obediência é conseqüência
de amor. Não é certo dizer que o amor a Deus deve brotar gradualmente da
prática de prestar obediência a Ele. O contrário é verdade: O amor encontra sua
libertação na obediência. Para o amor,
é uma bênção que a obediência se apresentou como uma modalidade concreta pela qual o amor poderia “viver-se”. O amor na
vontade fica impaciente, fica literalmente frustrado até encontrar um meio de
se soltar. E a ação é este meio. São Bento é absolutamente coerente neste
ponto, nesta ligação entre amor e obediência, amor como fonte de obediência.
Todo o grande capítulo cinco tão cheio de elã e misticismo baseia-se nesta
intuição. Igualmente, a frase consagrada da Regra, o bonum oboedientiae-
o bem da obediência, longe de ser algo irónico, ou ascético, exprime uma
gratidão, uma gratidão pelo fato que há um jeito para o amor tornar-se a
totalidade da vida.
5. Este é o ponto mais fácil. Certamente, o ponto mais
difícil é a presença de um superior neste grau: “por amor de Deus, se submeta o
monge, com inteira obediência, ao superior”. Aqui, o superior parece o
“red herring” do ditado norte-americano. Prestar obediência a Deus, momento por
momento, tudo bem...até místico. Mas como é que se intrometeu no meio da minha
relação amorosa com Deus um outro homem? Não é aquele caso de comer gato por
lebre, quando a gente aceita obedecer a um superior humano em vez de obedecer
direitamente a um Deus amado?
6. Talvez ajude a pensar, em primeiro lugar, em Jesus (com
quem termina este terceiro grau), pensar no início e no fim da sua obediência.
O início se encontra nas margens do Jordão, na hora de seu batismo. João
Batista imagina que a obediência de Jesus pode ser prestada direitamente e unicamente para o Pai, sem ter a mínima
ideia que ele mesmo pode ser o instrumento da submissão de Jesus ao Pai
celeste. É o próprio Jesus que discorda, falando da necessidade de “cumprir
toda a justiça.” Para mim esta cena
forma um díptico (um ícone duplo) com a cena no horto das oliveiras. Lá, no fim
da sua obediência, Jesus confia em seu coração para compreender o que o Pai vai
querer dele, e ele mesmo realiza a entrega de si mesmo sem intermediário, ao
passo que no começo, no batismo, Jesus obedece ao Pai, cumpre a justiça, em
fazer-se um dentro da multidão que se aproxima de Deus por meio do ofício
profético de João .(Paralelamente em Lucas, onde a mediação de João no batismo
não é explícita, Jesus obedece ao Pai no início de sua obediência em ser
oferecido a Ele por meio dos ritos e instâncias do Antigo Testamento: Ele é
circuncidado no oitavo dia, ele é apresentado ao Pai no templo por Maria, José
e o sacerdote Simeão no quadragésimo dia, ele é convidado a participar como
adulto na celebração da Páscoa no templo quando atinge os seus doze anos. Ele
é, na verdade, no início de sua obediência, o primeiro “oblato” da nova
aliança).
7. Assim também entende-se o processo da obediência na
tradição monástica. Para Cassiano, é óbvia no início do processo a necessidade
um pai espiritual que recebe a nossa obediência em nome de Deus Pai. Este “dublê” nos ensina a obedecer a Deus
Pai, tanto por estimular e eliciar uma
obediência generosa, quanto por sustentar a nossa obediência quando balança e
por ajudar-nos a discernir pouco a pouco por nós mesmos o que Deus quer de
nós. Precisamos de alguém que
consegue fazer-nos agir conforme à uma vontade diferente do que a nossa.
Precisamos de um outro
indubitavelmente distinto de mim que exige com autoridade a realização da
vontade dele. Isto porque ficamos profundamente presos em nossa
vontade. Mesmo querendo agir segundo a vontade de Deus, não vamos conseguir sozinhos
transferir a nossa lealdade fundamental a Deus de nós mesmos. Temos necessidade
de um “trainer”, alguém cujo direito de mandar em nós reconhecemos, e que
realmente dá ordens. Nesta situação de obedecer a um ser humano por amor a
Deus, tem como averiguar se estamos obedecendo ou não. É só olhar para a ordem
dada e ver se foi cumprida. Não
interessa se o sujeito desejava cumprir a ordem (como se salvasse por
boa vontade); o único necessário neste caso- fácil para constatar- é se o que
foi ordenado foi feito.
Deixem-me contar-lhes a história de Ir. Guy e o
computador. A moral final desta anedota é que a obediência a um ser humano nos
revela se somos capazes a obedecer, e serve como o único método para eficazmente
abrir a nossa vontade à vontade divina. “Quem vos escuta a mim escuta”, diz
Jesus (citado por São Bento) no capítulo 5 da Santa Regra. Se desejarmos um dia
pôr a nossa vontade entre as mãos de Jesus, temos que pô-la primeiro entre as
mãos de um igual. Obediência aos homens é o grande ensaio para a vida mística.
8. Além da libertação da nossa vontade prática realizada
pela obediência, há uma segunda bênção
na vivência deste terceiro grau: a formação da capacidade de fazer
uma leitura acertada, iluminada,
daquilo que Deus pede de nós. Podemos chamar esta capacidade discernimento
ou ciência espiritual. Como diz São João da Cruz, “O que vale oferecer a
Deus uma determinada coisa quando Ele nos está pedindo uma outra?” Obediência,
então, não é só uma vontade reta e em seguida um tiro no escuro (“Tomara que
seja isto que Deus queira”), mas o ato que verdadeiramente corresponde àquilo
que Deus pede de nós. A possibilidade de identificar a resposta que corresponde
à Divina Vontade se adquire por meio de um aprendizado a um mestre humano.(Segundo
Cassiano em sua segunda conferência, esta é a justificação fundamental para a
relação de obediência a um mestre) Podemos
pensar como tipo de “anti-exemplo” na historia de Saul e Samuel, onde
Saul realmente queria obedecer, mas de fato não obedeceu, porque não
agiu conforme à vontade do Senhor, não era capaz de identificá-la.
8. Mais uma coisa: Quando assumida pelos votos monásticos,
a obediência a um superior confere a este amor da qual falávamos e que busca
sua expressão em ação, a qualidade própria a todo amor verdadeiro: a qualidade
de eternidade. Não existe amor que não pretende ser “para sempre”, e São Bento
aqui apresenta o amor eterno de Jesus ao Pai por meio das palavras da Carta aos
Filipenses: “Fez-se obediente até a morte.” Se, de fato, a obediência é o amor
dinâmico, o amor que se prova por meio de atos, ela vai querer ser para sempre,
ela vai querer ser “compromisso”. Compromisso, irmãos, é muita coisa: é
intenção, é coragem, e também é humildade. O compromisso declara a intenção de
permanecer em todas as circunstâncias e todos os tempos no elã da entrega
amorosa; o compromisso exprime uma
fortaleza de alma que já levou em consideração todas as dificuldades possíveis a ficar firme nesta entrega e
mesmo assim cria coragem para enfrentá-las (inclusive as dificuldades futuras e
ainda desconhecidas) - e ao mesmo tempo, o compromisso reconhece nossa fraqueza
inerente, reconhece que a gente não é uma pessoa de absoluta confiança, e
portanto, se compromete por voto, a fim de que, na hora em que uma vontade
nossa que não é de Deus surgir contra a vontade de Deus que tínhamos acolhido e
o conflito nos empurra para a desistência, o voto fica em pé como revelação da
nossa vontade mais profunda, e nos mantém em pé, mesmo contra nós mesmos (isto
é, o “nós mesmos” do momento da tentação). Uma obediência oferecida só a Deus sem a mediação da Igreja, sem um
superior, pode facilmente cair na época de uma grande tempestade interior. Em
contrapartida, uma obediência a Deus acolhida pela Igreja e apoiada por uma
comunidade e seu superior, tem boa esperança de realizar seu desejo mais
profundo: de ser a encarnação de um amor a Deus que é para sempre.
9. E se sentimos que esta nossa entrega a Deus está sendo
desviada pelo superior, pela instituição,
será que a luz divina pode também irradiar esta situação? Se a pergunta
os interessa (e espero que interesse), não percam o próximo número da série-O
Quarto Grau- onde São Bento se pronunciará
acerca desta questão.