IV. Em busca de
uma luz IV (17-09-05)
1. Chegamos ao quarto grau da humildade que fala de uma
experiência negativa da obediência. A
obediência já foi identificada por Bento no grau anterior como “amor em ação”;
portanto, não podemos simplesmente conformar-nos com a ideia de obediência como
um aspecto penoso ou penitencial da vida monástica. Longe de nós fazer com
obediência o que muitos sacerdotes no mundo fazem com o celibato: considerá-lo
como o “preço” da vocação. Não, é exatamente este tipo de atitude que São Bento
quer superar. Como deixar o “bem da obediência” como ele o chama ainda se faz
sentir, mesmo em condições desafiadoras?
2. Primeiro, é bom dizer explicitamente que estas
dificuldades no caminho da obediência podem ter uma base fundamental objetiva
ou subjetiva. A base é subjetiva quando a ordem do superior e a
maneira de comunicá-la é perfeitamente lícita, mas nós por causa de alguma
imaturidade pessoal ou deformação de caráter sentimo-nos injustiçados ou
ofendidos por esta ordem. Não se trata de egoísmo consciente, mas de uma
leitura errada da realidade que surge por causa de uma imperfeição em nossa
personalidade. Nós realmente nos consideramos ofendidos, mas se pudéssemos ver
a situação na luz da verdade divina, descobriríamos que a dor procede de um
deficiente realismo psicológico da nossa parte. Quanto mais levo a vida
monástica, mais convicto me torno que as paixões mais difíceis e resistente são
aquelas que têm origem em nosso intelecto-
a vaidade e o orgulho.
3. Agora, porém, suponhamos que o problema é objetivo- que
nós estamos enfrentando coisas duras e adversas, ou que até estamos sendo o
objeto de injúrias. Qual é a alquimia que São Bento recomendar para transmutar
este chumbo em ouro?
4. Pessoalmente, eu vejo cinco vantagens que provêm da
experiência do sofrimento no exercício da obediência. Aqui estão:
A primeira é
que o sofrimento cria determinação. Encontrando-nos diante do sofrimento em
nosso empenho, há apenas duas possibilidades: ceder ou continuar- desistir ou
insistir. A mim parece que a experiência de sofrimento no cumprimento de nossos
deveres é comparável a um jogo de “arm-wrestling” (ou “finger wrestling”). Deus
é o nosso concorrente e aparentemente quer
forçar o nosso braço a ceder, empregando a sua força contra nós. Se a
gente se lembra da história de Jacó e o anjo, porém, percebe-se que a vontade
de Deus é que a gente ganhe. Mas ganhe mesmo. Deus não vai simplesmente nos
entregar um certificado de vencedor . Opondo-se a nós, ele nos estimula de aplicar
toda a nossa energia na luta- mais energia, de fato, do que pensávamos ter. O
sofrimento consegue disponibilizar as nossas reservas- os nossos desejos
profundos, e talvez consegue
aumentá-las. Paradoxalmente, é o
sofrimento que faz com que abracemos o nosso propósito de coração mais íntegro.
Quem foi quem disse, “A tribulação produz a perseverança”
(Rom. 5:3). Mais uma vez, São Paulo tinha razão.
5. A segunda vantagem é que o encontro com dificuldades na
vida de obediência mudas as nossas motivações.
Com a possível exceção de pessoas muito hostis, todos nós desejamos agradar aos
outros. Queremos uma convivência agradável, e sem atrito; e queremos saber que
a nossa contribuição à comunidade é reconhecida e respeitada. Tais motivações
são normais e positivas, mas não só as supremas. As motivações mais profundas
na vida da obediência são a) amar a Deus
b) servir aos irmãos c)viver com integridade. Certamente a nossa vida da obediência
monástica já participa destas motivações mais altas, desde o início. Mas são
muito misturadas com as do primeiro
grupo - o desejo de agradar aos homens, e também de fazer sucesso. Quando
encontramos oposição ou quando
fracassamos, os dois grupos de motivações se separam temporariamente - por
enquanto são irreconciliáveis. Esta representa uma grande oportunidade para
nós, para livremente escolher a perseverança no bem por amor a Cristo e a
Igreja. As circunstâncias adversas permitem uma adesão mais “pura” aos dois
grandes mandamentos, que são subjacentes a todos os instrumentos de boas
obras.
6. A terceira vantagem é a descoberta da beleza da
virtude. O que nós chamamos as virtudes cardeais- justiça, prudência,
temperança, fortaleza- não são imposições morais, mas nós mesmos em nosso bom
andamento. Viver justamente, prudentemente etc. significa viver em sintonia com
nossa estrutura humana. E, segundo toda a nossa tradição católica, viver
conforme à nossa estrutura, é viver feliz. O belo, o bom e o beato são
estreitissamamente ligados. Viver privado
por um tempo da aprovação de meus superiores ou do apoio de meus irmãos
deixa a virtude manifestar se tal como ela é. Não podemos contemplar a beleza
de temperança ou paciência ou qualquer outra virtude de fora, mas só por
experiência própria. E são as situações difíceis que revelam mais claramente as
virtudes desnudadas de todos os enfeites (popularidade, aplausos, etc.). Neste
caso, o estado natural é sem dúvida o estado de beleza maior.
7. A quarta vantagem é a formação de uma nova liberdade de
amar. Na chave cristã, o amor fraterno não é o amor que uma pessoa santa rende
à outra. O Evangelho fala tão claramente sobre isto no Sermão da Montanha onde
tal amor é qualificado como “amor-pagão” (amor dos goiim).
O amor fraterno tanto no Sermão da Montanha quanto na
primeira Carta aos Coríntios e em mil outros lugares no Novo Testamento, é o
amor para aqueles que nos ofendem, que nos negligenciam, que exigem de nós
muito mais do que dão. Podemos pensar que já amamos deste jeito, mas só as
experiências descritas no quarto grau vão revelar a verdadeira natureza de
nosso amor. É por meio de tais experiências que aprendemos a amar aquele que São Bento denomina (citando São Paulo) o “falso irmão”. Por
meio das coisas duras e adversas que ele nos oferece, chegamos a descobrir que
o falso irmão ainda é irmão e que há uma possibilidade de amá-lo- não tanto em
nossas emoções (que afinal das contas não são tão importantes assim), mas em
nossas ações- oferecendo a outra face, acompanhando-o a segunda milha, etc. Eu
adoro um versículo de São Paulo em
Romanos 12 que infelizmente quase sempre se omite das leituras litúrgicas: “Se
o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer, se tiver sede, dá-lhe de beber.
Agindo desta forma, estarás acumulando brasas sobre a cabeça dele” (12:20).
Então, se quisermos pensar em brasas ardentes fazendo o bem ao irmãos difícil,
temos toda a liberdade. É só amá-lo em ação.
8. A quinta e última vantagem é para São Bento a mais
importante. É a formação da esperança teológica. O que permite que
aceitemos o desagradável de mente tranqüila é o lançar de nossa âncora de
esperança além do véu. O nosso Senhor vê
tudo, anota tudo. Ele bem sabe que estamos esforçando-nos a amá-lo, e
exprimir este amor por meio de todas as nossas ações. Ele não vai deixar-nos
ficar sem nosso prêmio, sem os tesouros que ele reserva para todos que o amam.
Os grandes cânticos que recitamos, “Dificuldades não temos em sustentar tudo
isso”, se têm alguma ligação com a realidade, esta ligação consiste em nossa
esperança inabalável. É um dos temais mais centrais do saltério: Do alto céu o
Senhor olha a terra, e vê os justos e os injustos. Mas não olha intocado- olha com muitíssimo interesse, com
um desejo forte de dar aos justos o salário.
Quando o patrão em Mateus 25 diz, “Muito bom, servo bom e fiel. Vem
alegrar-te com teu Senhor”, em que consiste esta alegria, se não na
oportunidade que isto dá a Deus para premiar-nos. Afinal das contas, para ele
também, há mais alegria em dar do que em receber.