Ir. Thiago - Entrada no Postulantado
28 de abril de 2005
Se a gente faz uma síntese das cartas às sete igrejas dos primeiros capítulos do Apocalipse, a gente encontra uma ladainha tão linda e tão evocativa quanto a ladainha de Nossa Senhora: Eu lhe darei a pedra branca, eu lhe darei o maná escondido, eu o farei uma coluna na casa de meu Deus, eu tomarei com ele a ceia mística. Certamente há bíblicos, e muitos, que no decorrer dos séculos têm interpretado o significado simbólico de cada uma destas realidades. Mas na verdade elas resistem à interpretação. Elas não pretendem ter uma tradução e sim despertar o que São Bento chama a nossa "concupiscência espiritual". Nós não sabemos os ingredientes do maná escondido, nem o cardápio da ceia mística, mas quando ouvimos Jesus comprometer-se solenemente a entregar estas coisas "ao vencedor", o que sabemos é que queremos. "Senhor", disse a mulher samaritana, tão espiritualmente ignorante quanto nós, "dá me sempre esta água a beber!"
Apesar de toda a nossa ignorância, e a insistência do texto em esconder seu conteúdo mais profundo (por isso, o Apocalipse é o clássico texto "exotérico"), acho que podemos dizer alguma coisa sobre estas promessas. A coisa mais óbvia- e realmente já afirmada- é que estas promessas apocalípticas transcendem a nossa compreensão. Mesmo se Jesus nos explicasse pacientemente o que significa o maná escondido, ficaríamos longe de captar tudo aquilo que ele queria transmitir. O nosso desejo aumentaria; o nosso entendimento ficaria, em algum ponto, parado. Talvez seja esta uma vantagem, esta incapacidade de compreender, porque assim tornamo-nos convictos que esta realidade é maior de nossa cabeça, embora (talvez) não de nosso coração. Quando Santo Agostinho queria provocar cócegas em nossa concupiscência espiritual, costumava dizer que Deus estava preparando para nós o idipsum- aquela coisa, aquilo, o você sabe, não sabe? E quando São Bento queria mostrar-nos o que Deus tinha em reserva para a gente, ele disse: "O Senhor nos dará em recompensa o salário que Ele mesmo prometeu: O que os olhos não viram, nem os ouvidos
ouviram- é isto que Deus preparou para aqueles que O amam."
Também intuímos que todas estas realidades- maná, pedra, ceia, coluna, e as outras, no fim das contas são uma única coisa- são a única coisa. "Marta, Marta, tu te agitas por muita coisa; no entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo, uma só." Uma riqueza de títulos vela uma única realidade luminosa - o reino interior, a inhabitação divina que nos assemelha à Trindade que brilha tranquilamente em nós. Temos, todos nós, tanta vontade de atingir o nosso ser, de viver, de "realizar o nosso potencial". Nada disso é egoísmo - é o nosso impulso mais cego e mais acertado. "Quero ser." O maná, a pedra, a ceia são as garantias que o mistério da nossa identidade vai ser realizado. Não somos destinados a bater numa frustração, num limite. A solidez da pedra, a intimidade da ceia, a firmeza da coluna, o sabor do maná nos asseguram de que um dia conheceremos, uma dia seremos, "a largura, o cumprimento, a altura e a profundidade". Cristo infundindo a sua vida em nossa nos vestirá de sua glória. "O que sonhou seu coração, lhe concedestes." Quantas vezes durante o tempo pascal Cristo nos estimula a sonhar alto: Se pedirdes algo em meu nome, eu o farei." "Até agora, nada pedistes em meu nome. Pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa." Estas imagens de beleza, de integridade, de eternidade, de totalidade- são a nossa vida em Cristo, a nossa vida irradiada por Cristo. Colocando-as diante os nossos olhos, ele quer que a gente as peça, e as receba "sem custo e sem dinheiro."
Ou quase sem custo. Porque estas promessas são apocalípticas, são palavras confiáveis de Cristo que se realizam naqueles que perseveram na grande tribulação. Aqui a palavra chave é "realizam". Estas promessas se tornam realidades precisamente por meio de um processo de tribulação. Antes do processo, a pedra é apenas um punhado de areia, o maná é um orvalho ainda não cristalizado, a coluna é uma madeira não talhada, a ceia uma coleção de mercadorias ainda não preparada ou temperada. "Tribulação" é uma palavra que pode dar medo, mas no fundo, ela é apenas a pressão, a temperatura, o tempo, o ambiente necessários para formar e moldar em nós estes dons, para purificar e aperfeiçoar e eternalizá-los. Passar pela grande tribulação, então, e simplesmente passar pela fornalha que retira as impurezas e faz o ouro resplandecer. E neste processo, Deus é mais delicado e atencioso do que imaginamos. Se um simples superior monástico é capaz de tomar cuidado para não raspar demais a ferrugem e assim quebrar o vaso, quanto mais Jesus Cristo vai tomar todas as providências para não provar-nos além da nossa capacidade de agüentar.
Ir. Thiago, você chega a Novo Mundo carregado de muitas bênçãos. Você tem algo do intelectual, algo do artista, algo do poeta. Você traz em suas veias o calor e a graça de Pernambuco. Você já teve o privilégio de ser formado na grande tradição franciscana. "Tudo isto eu tive, desde a minha juventude", você pode dizer a si mesmo. "O que ainda me falta?" Parece que uma voz interior lhe sussurra, "E se quero ser perfeito?" Não moralmente perfeito, mas perfeitamente feito, repleto nesta vida dos dons da vida vindoura- a pedra, o maná, a coluna, a ceia? Talvez seja por isto que chegue à nossa porta e bata como postulante: para ver se para você, assim como para milhares de monges trapistas no decorrer dos séculos, o mosteiro é a tesouraria dos dons escatalógicos. Comecemos, então, com um deles, o dom da igreja de Sardes: "O vencedor se trajará com vestes brancas." Aqui estão, ao meu lado, a túnica e o capuz. "Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas." Amém+