Homilia pelos 75 anos da Abadia de Genesee
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Homilia proferida por Dom Gerard D'Souza, Abade de Genesee, no dia 26 de maio de 2026
Querido Bispo Matano (Dom Salvatore Ronald Matano, Bispo Emérito de Rochester - NY), sacerdotes, nossos abades e abadessas trapistas, irmãos e irmãs trapistas, Madre Kristina e Irmã Andreja, irmãos da Abadia de Genesee e todos os nossos convidados presentes nesta igreja. Agradeço a presença de todos nesta celebração dos 75 anos da fundação de Genesee.
Somos moldados pela nossa história. Por isso, ao celebrar este jubileu de 75 anos, começo pelo princÃpio.
Nossos pioneiros trapistas — Dom Gerard McGinley, Pe. Ambrose, Ir. Alexis, Ir. Hugh, Ir. Martin, Ir. Pascal, Ir. Silvestre e Ir. Barnabé — partiram de Gethsemani para plantar a vida monástica no vale do Genesee. Trouxeram consigo aquilo que chamamos de cruz da fundação, proveniente de Gethsemani. Vista de fora, ela pode parecer apenas mais um pitoresco costume da Ordem: levar uma cruz de madeira para uma nova fundação. Mas algo acontece de maneira invisÃvel: a sombra da Cruz marca aquele lugar.

No caso de Genesee, o preço dessa cruz foi cobrado muito cedo. Ela foi cravada no coração desta comunidade ainda muito jovem. Ninguém lhes pediu autorização. Eles haviam trazido a cruz de Gethsemani; por isso, o consentimento já estava implÃcito.
Genesee foi fundada em maio de 1951. Em setembro do mesmo ano, perdeu o seu primeiro monge: o Irmão Dennis. Escolhido para integrar a fundação, descobriu ainda em Gethsemani que estava tomado pelo câncer. Mesmo assim, veio para Genesee a fim de servir à comunidade. Era o segundo superior e também celeireiro. Tinha apenas 27 anos e, se Deus tivesse querido de outro modo, provavelmente teria sucedido Dom Gerard como abade de Genesee. Mas Deus não o quis assim.
Em 1952, o mestre dos noviços, Pe. Simon Smith, morreu em consequência de um fulminante ataque cardÃaco. Em 1955, apenas quatro anos após a fundação, Dom Gerard partiu para o CapÃtulo Geral, na França, levando consigo os projetos de um magnÃfico mosteiro, destinado a rivalizar com Gethsemani. Subitamente adoeceu e ali faleceu.

Que choque! Que dor! Que sofrimento!
Lembro-me de ouvir o Pe. Regis descrever esse acontecimento cerca de quarenta anos depois. Para ele, era como se tudo tivesse acontecido na véspera.
A maior perda foi a morte de Dom Gerard. Um comunicado da comunidade procurava expressar a profundidade desse sofrimento:
"Somente Deus pode conhecer o sofrimento que pediu aos filhos do nosso querido ReverendÃssimo Padre... Pois Dom Gerard foi um verdadeiro pai para todos os seus filhos e conquistou o coração de cada um de nós. Embora os nossos corações estivessem despedaçados, sabÃamos que ele havia alcançado aquilo pelo qual tão belamente lutara ao longo dos trinta anos de sua vida religiosa: aquela bem-aventurança e paz sem fim pelas quais todos nós também nos esforçamos."
A comunidade elegeu então como novo abade o mestre de noviços de Gethsemani. Ele permaneceu apenas sete anos no cargo, antes de ser atingido pela efervescência e pela instabilidade que cercaram o ConcÃlio Vaticano II. Sem qualquer aviso prévio, certo dia apareceu na abadia um sacerdote dominicano. Fora enviado por Roma. Ninguém da Ordem havia sido informado sobre essa Visita, nem mesmo o Abade Geral, Dom Gabriel Sortais.
O resultado da Visita foi que Dom Walter foi deposto e recebeu ordem de deixar imediatamente a abadia. Tudo o que envolveu esse doloroso episódio permanece envolto em escuridão, confusão e até mesmo tragédia. A comunidade, já profundamente abatida e ainda mais dividida pelas mudanças que atravessavam a Igreja, começou rapidamente a se desintegrar.
Em apenas sete anos, passou de 70 para 29 monges. Muitos sacerdotes talentosos e irmãos muito capazes partiram em massa. Todo o noviciado, juntamente com o mestre dos noviços, deixou o mosteiro. Apenas dois noviços decidiram permanecer. Um deles ainda vive entre nós.
Genesee entrou, então, em modo de sobrevivência. Quando um navio é sacudido pela tempestade, não se organizam festas no convés. Fecham-se as escotilhas e cada um ocupa o seu posto. Somos profundamente gratos aos irmãos que permaneceram firmes durante aqueles anos turbulentos. Sem eles, não estarÃamos aqui hoje.
Os dois abades que se sucederam — Dom Jerônimo, durante seis anos, e Dom John Eudes, durante longos trinta anos — mantiveram firme a mão no leme e conduziram a comunidade até reencontrar a estabilidade. Para com eles temos uma imensa dÃvida de gratidão.
O grande mistério da Cruz é que ela não fala apenas da morte, mas da morte como passagem para a vida.
Sim, a comunidade foi marcada por esses golpes devastadores, por esse trauma, em grande parte nunca plenamente assimilado. Ainda assim, construiu esta igreja e deu origem a duas fundações: uma na Nigéria, que hoje é um dos maiores mosteiros da Ordem; outra no Brasil, que levou tempo para crescer, mas que hoje é plenamente brasileira e possui um abade brasileiro.
Mais importante ainda: daqueles anos de turbulência e instabilidade nasceram dois grandes dons espirituais que constituem o DNA de Genesee: a fidelidade e a cooperação.
Talvez não tenhamos muitos recursos, nem grande aparato. Mas, quanto à fidelidade e à cooperação, isso nós temos. E o devemos aos nossos predecessores, que suportaram o peso do dia e o calor do trabalho. Não há dúvida de que foi a Providência de Deus que nos conduziu até aqui.
Quando entrei no mosteiro, fiquei impressionado com a ineficiência da vida monástica. Isso não aparece nos belos folhetos vocacionais. Eu me perguntava: como algo tão ineficiente, sempre parecendo estar por um fio, consegue continuar existindo ano após ano? Dizia a mim mesmo: só pode ser magia.
Eu vinha do mundo e estava completamente impregnado pela lógica da eficiência e da escassez. Hoje, depois de trinta e quatro anos aqui, continuo dizendo que existe realmente uma espécie de magia. Mas essa magia é a mão de um Pai Providente, que derrama o cêntuplo sobre aqueles que jamais poderão merecê-lo.
Parece que Deus não se escandaliza com a ineficiência. Porque o mosteiro é, antes de tudo, um lugar de conversão, e a conversão é algo profundamente desordenado e absolutamente ineficiente.
É por isso que o Pai é tão paciente — e, por assim dizer, tão "ineficiente". Os fracassos não atrasam em nada os planos de Deus. Afinal, a Cruz é o maior dos fracassos e, ao mesmo tempo, a porta de entrada para a vida.
Já citei muitas vezes, e jamais me canso de citar, o Papa Bento XVI, quando recorda que sempre nos esquecemos da maneira como Deus salvou o mundo: por meio da Cruz; por meio dos fracassos, das provações e dos reveses.
"Deus não fracassa. Ele 'fracassa' continuamente; mas é precisamente por isso que não fracassa, porque, por meio disso, encontra novas oportunidades para uma misericórdia muito maior. A sua imaginação é inesgotável."
A imaginação de Deus é inesgotável. E nós, ao celebrarmos estes 75 anos, somos testemunhas vivas dessa verdade.
Já falei tempo suficiente e preciso pousar este avião antes que ele volte a decolar. Talvez vocês tenham percebido que ainda não agradeci formalmente a ninguém. Reservei essa tarefa para alguém que faz isso melhor do que eu: o nosso antigo abade, o bom Padre John Denburger.
Quanto a mim, guardo apenas um agradecimento. E ele é dirigido a alguém muito especial. Quando Dom Gerard chegou a este vale, contemplou sua serenidade e lhe deu o nome de Vale do Sorriso de Nossa Senhora.

É a essa boa Mãe que hoje queremos elevar a nossa ação de graças por estes 75 anos. Sua serena imagem domina o vale de Genesee. Mais do que isso, sua proteção invisÃvel nos sustentou ao longo de todos esses anos. Que Ela, nossa doçura e nossa esperança, continue a velar por nós enquanto avançamos para o futuro.
